Apenas os telefonemas de mãe, todos os dias, à mesma hora; e um velho gato que, por alguma razão, não tinha capacidade de se afeiçoar a quem quer que fosse.
Só isto dava um pouco de vida àquela casa quase sempre silenciosa, com tudo espalhado por todo o lado. Ele pintava, apenas para ele e para a sua alma (se é que a alma existe). Era talvez uma forma de se distrair, de enganar a saudade daquilo que nunca tinha tido na vida.
Este era um dos seus dias preferidos: cinzento, escuro, silencioso, nos quais não se encontrava vivalma nas ruas daquele bairro, em que qualquer pessoa optaria por ficar em casa, a “vegetar”, com a sua mantinha no colo.
Hum, típico.
Decidiu sair. Vestiu a gabardina e foi apreciar o silêncio da rua.
Chovia cães e gatos, mas oh, como ele gostava daquilo!
Foi descendo a rua, devagar, procurando seguir sempre por baixo das caleiras.
Era Março, e as árvores ainda estavam completamente despidas. A chuva inundava a rua, e a água escorria fazendo da estrada um leito.
Passou por uma loja e comprou um guarda-chuva, esquecera-se do seu.
As botas estavam completamente submersas e a água já tinha ensopado as meias de lã.
Adorava aquilo… o silêncio… a escuridão das sete horas da noite…
Só ele, a chuva, e os reflexos de tudo…
Avistou um vulto a vir em direcção a ele:
-Boa tarde, tem horas?
-Sete e meia – respondeu.
E, por alguma razão, ficaram ali, a falar…
Eles, a chuva, a rua, e as palavras… Eles, a chuva, a rua, e as palavras…
Eles… a chuva… a rua… as palavras…
Era tarde… Voltou para casa… Despiu a gabardina, as botas e as meias. Pegou no gato e foram para o sofá, também eles vegetar.
Mais um dia cheio de nada… Como era bom…
6 comentários:
muito bonito
só te falta o nome do autor
faz falta
muito bonito mesmo
o nome só é necessário quando se usa um texto de outro
adivinharam? :)
pena é que não produzas mais para publicar também, imaginação e talento não te falta
=) está perfeito
adorei
mais! mais! mais! ;)
:) mais um Blog para poder visitar e comentar.
Gostei, L.
Gosto da música que aí tens. Lembra-me um ano especial para mim: 2004.
beijinhos
sei não....diria que é dos dias cheios de nada "assim" que se chega
ao "imo" da vida...será?
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gostei.
-
pergunta:
pode-se voltar?
.
cordialmente.
não imaginas o quanto me revejo aqui, até certa parte, talvez não no sentido que empregas. Mas talvez pela forma que usa a pintura para se refugiar no seu próprio 'mundo'.
e como sabe bem vaguear à chuva, e sentir sobre nós o mundo com toda a sua vitalidade, como é bom estar de pés nus sobre a relva e saborear o vento, libertar os sentidos....sem preocupações, sem receios.
livre de alma e livre de corpo.
bruno
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